O PAPEL DOS PAIS NA TAREFA DE PREVENÇÃO

Crescer Juntos - O papel dos pais na tarefa de prevenção

O PAPEL DOS PAIS NA TAREFA DE PREVENÇÃO

Em entrevista realizada por Simone Greco do Jornal Labora, Doutora Sandra fala sobre a importância da família, em especial, do papel dos pais na prevenção ao uso de drogas e na qualidade de vida dos filhos.

Simone – O que leva um jovem a usar drogas lícitas, como bebidas alcoólicas e o cigarro, e, por outro lado, drogas ilícitas?

Sandra Scivoletto – A pré-adolescência e a própria adolescência são fases de experimentação de vários comportamentos. É o período em que a “ex-criança” começa a assumir o controle de sua vida social. Escolhe para onde vai e com quem, adquirindo, inclusive, mais autonomia para se deslocar fisicamente. Assim, o jovem experimenta novos contatos sociais, novas atividades de lazer. A curiosidade se aguça e também a vontade de satisfação imediata, já que o jovem vive o aqui e o agora.

Desse modo, quanto mais acesso ele tiver a certas situações, como, por exemplo, frequentar com amigos bares ou festas que ofereçam bebida alcoólica, e quanto maior a aprovação desse programa pelo grupo, mais facilmente ocorrerá a experimentação.

Somando-se o fácil acesso, baixo custo e a maior aceitação do uso de algumas substâncias, como maconha, atualmente é muito fácil para um jovem satisfazer sua curiosidade.

Simone – Normalmente, os pais costumam culpar as más companhias quando o assunto são as drogas. Qual é sua opinião a respeito?

Sandra – As influências externas, dentre elas, a companhia em que adolescentes estão, têm um papel importante no primeiro contato e experimentação de álcool, cigarro e drogas ilícitas . No entanto, na passagem da experimentação para o uso regular, e na manutenção do uso, estão envolvidos outros fatores mais relacionados com características internas do adolescente, tais como, insegurança ou sintomas depressivos. Em outras palavras, um adolescente pode experimentar uma substância por “pressão da turma”, mas se estiver seguro, se acha que a droga não lhe trará nenhum benefício, ele se afastará dessa turma e irá em busca de outra. Se ele não conseguir ou tiver receio de mudar de turma, há outros fatores que precisam ser trabalhados e estão deixando esse jovem mais vulnerável às influências externas.

Simone – E o consumo de bebidas em casa? Como os pais devem agir

Sandra – O adolescente experimenta diversos comportamentos e atitudes na busca de uma identidade própria, diferente da de seus pais em alguns aspectos, e pelo desejo de ser visto como um indivíduo autônomo, adulto. Assim, ele se baseia, questiona, adapta e adota os modelos de comportamento adulto de que dispõe, buscando no ambiente esses modelos, especialmente no comportamento e atitudes dos amigos. A maior ou menor influência desses modelos no processo de maturação do adolescente dependerá de suas características internas.

Nesse contexto, minha sugestão aos pais é que reflitam muito sobre que modelo estão oferecendo para seus filhos. Se esperam que o filho tenha qualidade de vida e uma vida saudável, é fundamental que adotem essa postura. Costumo dizer que o exemplo não é uma boa forma de ensinar; muitas vezes, é a única!

Simone – O que os pais devem fazer quando sabem que a festa a qual o filho foi convidado vai ter bebida alcoólica?

Sandra – As festas existem para comemorarmos datas especiais, conquistas. Devemos incetivá-las para que os adolescentes percebam que é importante ter conquistas e que essas devem ser comemoradas, ou ainda, que devemos valorizar as oportunidades de estar próximos de pessoas que são importantes para nós. Entretanto, deve-se comemorar com responsabilidade, ou seja, de uma forma que nos permita recordar esse momento (não bebendo até “não lembrar mais de nada”).

Para que os pais possam refletir sobre a adequação ou não de o filho ir a uma festa em que servirão bebidas alcoólicas, três aspectos devem ser considerados: o legal, o exemplo que está sendo dado pelos adultos presentes e a maturidade do jovem. Quanto ao primeiro, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe o fornecimento de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos.

Assim, na festa, haverá adultos que podem beber e adolescentes que por lei não podem fazer uso de álcool. Surge então um problema: é elegante e agradável oferecer comidas e bebidas que não podem ser consumidas por todos? Qual a mensagem que os pais que estão oferecendo a festa estão passando, especialmente no que se refere às questões legais?

Simone– Mas muitas pessoas argumentam que os adultos querem consumir álcool, mesmo em festas infantis.

Sandra – Se a opção for servir álcool, “porque outras pessoas podem ter vontade de beber e são adultos”, recomendo que cada pai e mãe pensem na maturidade de seu filho, que é o segundo aspecto envolvido.

Meu filho consegue resistir a eventuais pressões dos amigos para beber? Se ele tiver maturidade para isso, sugiro aos pais conversarem com o filho antes da festa sobre as possíveis situações com as quais pode se defrontar, e orientá-lo sobre opções de que pode lançar mão para não beber. Se, entretanto, o adolescente mostrar-se inseguro, talvez seja melhor explicar que o filho não poderá ir ou oferecer alternativa intermediária: ir e voltar mais cedo ou até os pais acompanharem o filho na festa.

Por tratar-se de uma questão que preocupa a maioria dos pais, sugiro que eles conversem entre si, especialmente aqueles com filhos entre 13 e 16 anos. Se tiverem um acordo sobre essa questão, será muito mais fácil lidar com argumentos do tipo “todos os meus amigos vão” ou “todos os pais deixam”. Os pais devem ser tão unidos quanto os jovens!

Simone – O fato de um adolescente ingerir bebidas alcoólicas com certa frequência pode torna-lo mais suscetível ao uso de outras drogas?

Sandra – Felizmente, a maioria dos adolescentes interromperá o consumo de drogas conforme forem assumindo outros papéis na vida adulta (o consumo de tabaco constitui exceção, tendendo a permanecer na idade adulta).

No entanto, não sabemos, previamente, quais adolescentes têm mais disposição para passar do uso experimental para a dependência. Para avaliar essa questão, temos de analisar os fatores de risco e de proteção que podem estar presentes.

Pesquisas mostram que os fatores de risco citados com mais frequência são: uso de drogas pelos pais e amigos; desempenho escolar insatisfatório; relacionamento deficitário com os pais; baixa autoestima; sintomas depressivos; ausência de regras claras; baixo senso de responsabilidade; pouca religiosidade; uso precoce de álcool. Portanto, diversos fatores estão associados ao aumento da probabilidade de consumo de drogas entre os adolescentes. Os pais devem estar atentos à ocorrência, principalmente, de antecedentes familiares de problemas com álcool e drogas, transtornos alimentares (anorexia e bulimia) e dificuldades emocionais, além do desempenho escolar e da dificuldade de o adolescente se realizar e sentir prazer nas atividades que desempenha.

De qualquer modo, antes de focar especificamente na questão do uso ou não de drogas, é mais importante olhar para o adolescente. É preciso avaliar como o filho está, de forma geral, em termos de realização, autoestima e relacionamentos sociais, entre outros. Os jovens precisam sentir que eles são bons em alguma atividade, onde esse destaque representará sua identidade e sua função dentro do grupo. O adolescente que não consegue se destacar nos esportes, estudos e relacionamentos sociais, dentre outros, pode buscar nas drogas a sua identificação. Em suma, os pais devem se preocupar com o desenvolvimento global do filho. O ideal é que identifiquem eventuais problemas antes que o uso de drogas se torne o principal problema!

Simone – Qual é o papel dos pais na prevenção do uso de drogas?

Sandra – O papel da família é fundamental. É ela que forma o futuro adolescente. Crianças que crescem em um ambiente com regras claras geralmente são mais seguras. À medida que se defrontam com limites, aprendem a lidar com as frustrações, desenvolvendo recursos próprios para superá-las. Sem regras claras, a criança busca limites adotando um comportamento desafiador com os pais, como se provocasse a imposição de limites.

Posteriormente, já adolescente, repetirá o comportamento desafiador fora da casa. Na tentativa de descobrir as regras do mundo, também vai testar os limites, deparando-se com frustrações. Como não desenvolveu mecanismos para lidar com elas, pode recorrer às drogas, que surgem como “solução mágica”: o jovem as consome e todos os sentimentos ruins desaparecem por alguns instantes, sem necessidade de esforços maiores.

Além de ter de ocupar-se com a formação de jovens seguros, a família precisará, na fase da adolescência, manter-se próxima do filho. A proximidade e o bom relacionamento entre pais e filhos são fatores protetores com relação ao uso de drogas e também para outros problemas que podem surgir na adolescência e na idade adulta. Os pais devem procurar conhecer os amigos de seus filhos, ter mais contato com eles. Também é muito importante que pais e filhos tenham, ao menos, um interesse em comum, como futebol, gosto por música, cinema, para que a proximidade seja mantida e assim seja possível acompanhar melhor o desenvolvimento dos filhos.

Acompanhar o crescimento dos filhos, seus interesses, seus medos, é o principal fator protetor para problemas futuros. Indico que os pais respondam ao questionário “O que você sabe sobre seu filho” (que se encontra no blog Vital – www.csasp.g12.br/projetos/vital.html) e que procurem estar atualizados com as respostas ao longo do tempo.

SANDRA SCIVOLETTO

É professora de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da USP, chefe do Ambulatório de Adolescentes do Instituto de Psiquiatria do HC e assessora da Secretaria Nacional Antidroga.

Atenciosamente,

Direção